Salários médios sobem no turismo, mas ainda não vão além dos 632 euros

Setor contesta contabilização feita pelo INE que apenas inclui "alojamento, restauração e similares".

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Desde 2014 que o turismo em Portugal bate recordes, mas os salários contabilizados pelo gabinete de estatísticas nacional parecem não acompanhar este ritmo de crescimento. No ano passado, o salário médio líquido pago pelas “atividades de alojamento, restauração e similares” não foi além dos 632 euros. São mais 41 euros do que em 2014 quando a atividade voltou a crescer, e apenas mais 45 que em 2011, em pleno ano de entrada da troika em Portugal. Em comparação, no ano passado, o país recebeu quase 21 milhões de turistas, com o setor a valer 7% da economia nacional em 2016, segundo a Conta Satélite de dezembro, com as receitas a atingir 12,6 mil milhões de euros (o dobro do valor de há dez anos). Só no último ano, o Turismo cresceu mais 9% em hóspedes e 19% em receitas.

Pouco qualificado e com forte rotatividade de empregos, o setor não se autopromove como o melhor pagador, mas também não se revê nos números, e aponta falhas ao gabinete de estatísticas. “Se juntarmos à hotelaria e à restauração agências de viagens, companhias aéreas, aeroportos, operadores, campos de golfe, resorts… isto sobe”, alerta Francisco Calheiros, presidente da Confederação do Turismo de Portugal (CTP) ao DN/Dinheiro Vivo, que chama a atenção para a subvalorização da indústria turística. “Queremos que as CAE [classificações de atividades económicas] sejam muito mais expressivas, até pelo peso que a confederação representa.”

Não é só. O patrão do turismo alerta para uma configuração remuneratória pouco convencional, que as estatísticas não refletem. “Muitos trabalhos têm um ordenado de mil, 1500 euros que equivale 80% a 90% do seu rendimento base. No turismo não é nada disto. O ordenado-base, e é este que conta para as estatísticas, não tem nada que ver com o ordenado total”, detalha, adiantando que a grande maioria das empresas que compõem esta indústria apresentam “uma atividade 24 horas por dia, sete dias por semana, 365 dias por ano”, o que levou à criação de “subsídios de noite, subsídios de sábado e domingo, de línguas ou de caixa”. A estes bónus acrescem ainda, por contratação coletiva, a alimentação que no caso da hotelaria é toda paga pelo empregador, do pequeno-almoço ao jantar. E quem não dá alimentação paga-a. O referencial que estamos a ter de comparativo está errado”, diz Calheiros.

A Associação da Hotelaria de Portugal (AHP) não tem números sobre o andamento dos salários em 2017. Mas um último levantamento de 2016 apontava para “salários médios de 1035 euros, excluindo subsídios, designadamente de alimentação, e prémios sem caráter certo e permanente”. Esta remuneração, adiantou a associação, foi paga durante 14 meses. Nesse ano, o INE apontava para vencimentos médios líquidos de 614 euros nas “atividades de alojamento, restauração e similares”, a única contabilização que existe. “O turismo, maior setor económico nacional, enquadra diversos subsetores, desde a hotelaria à restauração, e outras formas de alojamento, empresas de animação, organização de congressos, agências de viagens, etc.”, reforça a associação, deixando um apelo à afinação da estatística.

“Quando se fala em “salários no alojamento e na restauração” haveria que distinguir um e outro setor, e dentro do alojamento, a hotelaria. Os níveis salariais dos trabalhadores não são os mesmos, nem as suas funções ou formação”.

Com a indústria a braços com uma falta de pessoal nunca antes vista – e previsões de que sejam precisos 40 mil trabalhadores em 2018, o Sindicato dos Trabalhadores da Indústria de Hotelaria, Turismo, Restaurantes e Similares do Norte diz que a falta tem que ver com o emprego oferecido. “O problema são os salários baixos, más condições de trabalho, horários de trabalho, não pagamento de feriados, ritmos de trabalho, trabalho ilegal e clandestino, fumo do tabaco durante todo o período do trabalho”, disse recentemente ao Publituris.

As contas deste sindicato ilibam os hotéis, mas confirmam a precariedade da restauração onde “80% dos trabalhadores recebem o salário mínimo”. Na sua leitura composta, os organismos oficiais diziam que, em abril, 39% do setor do alojamento e restauração levava a remuneração mínima para casa.

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