“Os investidores já sabem que é possível ter uma empresa partida entre os dois lados do oceano”

Almoço com Pedro Vieira

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A certei o almoço com Pedro Vieira ainda antes de sair de Portugal. À hora combinada, lá estávamos, numa pizaria em Burlingame, a meio caminho entre Silicon Valley, a sul, e São Francisco, a norte. O dia estava ensolarado, uma raridade para aqueles lados e para esta altura do ano, e decidimos ficar na esplanada. Foi uma boa opção. Aquele tempo na rua deu uma boa imagem do que é um bairro residencial, de classe média-alta, na periferia de Silicon Valley. Um Lamborghini aqui, um Ferrari acolá, muitas senhoras passeando cãezitos de raça, com aspeto caro. O cônsul Nuno Mathias já me tinha revelado a estatística. Dois terços do capital de risco a nível global está nos Estados Unidos, e um terço dessas reservas estão aqui, em Silicon Valley.

A pizaria Delfina fica a meio de uma rua de comércio em Burlingame, lojas e restaurantes porta sim, porta sim. Pedimos duas pizas – Amatriciana para o Pedro e Prosciutto para mim. Ao lado, dois copos de Chardonnay bem frios. Ainda esperávamos as pizas quando Pedro Vieira foi contando um pouco do seu percurso. “Terminei o doutoramento, trabalhei como consultor de estratégia durante um ano e depois começámos uma empresa que foi um spin-off de um projeto que tínhamos em Berkeley, onde fiz o doutoramento.” É um dos segredos de Silicon Valley e do Norte da Califórnia, a ligação das universidades ao mundo real, ao mundo das empresas e dos negócios. Pedro Vieira dedica-se, por estes dias, à aventura da West to West. A missão passa por fazer pontes entre os dois lados do Atlântico, mas sobretudo criar um ambiente propício ao empreendedorismo português na zona da baía de São Francisco.

E essa empresa que foi um spin-off de um projeto que trabalhou na universidade? Pedro Vieira fala da sua criação: “Chama-se Goodguide, ainda existe hoje em dia. Levantámos dinheiro de investidores de capital de risco em Silicon Valley, de dois dos maiores, que são a DFJ e a NEA, e vendemos a empresa há cerca de quatro anos e meio a uma das maiores empresas mundiais de certificação de segurança e qualidade. O que a Goodguide faz é ajudar pessoas a comprar produtos mais saudáveis e mais seguros, com menos problemas para a sua saúde.” Pedro confessa que está agora numa fase de espera, de ver para onde o leva a maré. Ainda é chamado para resolver alguns problemas pontuais na Goodguide, mas o essencial da atividade passa por acompanhar os projetos que vão recorrendo à ajuda da West to West. Pedro Vieira apresenta este projeto, relativamente recente: “A West to West é uma non-profit, uma ONG americana, constituída por uma mistura de portugueses da nova geração, onde me incluo, que chegámos na última década, e portugueses da diáspora, que já cá estavam, até que nasceram cá da segunda e terceira gerações. O objetivo é criar e manter uma ponte entre os dois mundos tecnológicos, de Silicon Valley e de Portugal, criando uma marca forte para a portuguese tech, para a tecnologia portuguesa aqui na Califórnia.” A West to West propõe-se ajudar no primeiro contacto com Silicon Valley, com conselhos acerca do ambiente de trabalho e negócio, e até com pormenores mais comezinhos, como a logística de encontrar um sítio para montar a empresa ou de lidar com as curvas e contracurvas da papelada da imigração.

Enquanto chegam as pizas, pergunto se essa marca distintiva das startups portuguesas já se afirmou aqui no Norte da Califórnia. Pedro Vieira diz que começa a ser possível assinalar uma identidade portuguesa nalguns projetos. “Começa a existir cada vez mais, em grande parte pelo trabalho que as startups portuguesas que estão em Silicon Valley vão fazendo. Hoje em dia, a Talkdesk está nas bocas do mundo frequentemente, porque é uma das empresas a crescer mais rapidamente em Silicon Valley. E há outras, como a Veniam, que esteve cá mas agora está em Nova Iorque e que também levantou dinheiro de venture capitals de topo. Portanto, todas estas empresas chamam à atenção do que se pode fazer em Portugal e os investidores de risco começam a perceber que é possível ter uma empresa que está partida entre os dois lados do oceano. Isso é ótimo. Fica mais fácil, para as empresas que vêm a seguir, justificar porque é que devem levantar dinheiro de um investidor americano embora tendo operações em Portugal. Têm estes casos de sucesso para demonstrar que é possível.”

E qual é o segredo do sucesso neste pedaço de planeta onde a competição por cada cêntimo de financiamento é a regra de sobrevivência? “O que convence em Silicon Valley, numa equipa que está a fazer algo pela primeira vez, no fundo é a equipa. É a garra da equipa, a capacidade técnica de trabalhar na ideia que tem, portanto, se eles perceberam muito bem o espaço em que vão trabalhar, se estudaram nesse espaço, já é uma vantagem logo à partida.” Resume-se tudo a uma boa ideia, portanto, a um bom projeto? Pedro Vieira diz que não, que “uma frase típica aqui é que não são as ideias que vencem, o que vence é a execução. É isso que as equipas têm de demonstrar aos investidores na fase inicial, que com o pouco que tinham ou o nada que tinham, conseguiram fazer algo de relevante. É isso que chama à atenção e que leva a que o primeiro cheque seja passado”.

Quanto à qualidade dos projetos que vão chegando às mãos da West to West, ou que aparecem aqui em Silicon Valley sem pedir ajuda, Pedro Vieira diz que há um filtro natural. “Dada a distância e a dificuldade de aqui chegar, os que conseguem cá chegar são aqueles que querem vencer. Alguns chegam mais bem preparados do que outros, a West to West oferece essa ajuda, mas sim, vejo essa vontade de vencer.” Pedro já guarda na manga alguns truques, afinal já por aqui anda há 13 anos, entre estudo e trabalho. “O que é importante é que as empresas que estão a começar em Portugal e depois querem vir para aqui, têm de começar logo a partir do dia zero com um pensamento global, do mercado global, e têm de começar logo a construir o seu produto para o mercado global e não para o perfil do consumidor português. Isto é mais fácil de dizer do que fazer, obviamente, mas é o ideal. Se virmos empresas como a Talkdesk, são empresas que construíram o seu produto logo a pensar no cliente americano, e isso fez uma diferença brutal e está a ver-se no crescimento que a empresa está a demonstrar.” Pedro Vieira tem mais alguns conselhos, para o momento em que os futuros empreendedores começam a desenhar projetos, ainda em Portugal: “Não se deixem influenciar pelos standards nacionais em termos de investimento e de constituição da empresa. Têm de pensar logo internacionalmente na forma como constituem a empresa e têm de ter logo à partida um road map daquilo que precisam de fazer ao fim de seis meses, ao fim de um ano, ao fim de ano e meio.” É este um dos pontos de fragilidade nos projetos que Pedro Vieira tem acompanhado, a “falta de pensamento estratégico”, o empresário diz que “há empresas que chegam à West to West, que pedem um tipo de ajuda típico para quem está no negócio há seis meses, mas eles já andam a trabalhar há ano e meio. Portanto, já passaram por várias fases, já desperdiçaram tempo e desperdiçaram dinheiro, e esse processo pode ser melhorado. Isto é problemático aos olhos de um investidor porque significa que aquela equipa utilizou o tempo e o dinheiro de forma menos eficiente”.

Um dos traços de quem faz negócios neste recanto dos Estados Unidos é um otimismo contagiante, uma confiança quase estranha aos olhos de um europeu recém-chegado. Já depois de pedirmos mais um copo de Chardonnay, Pedro Vieira revela uma visão positiva desta nova vaga de emigração portuguesa nos Estados Unidos. As debilidades de quem apareceu em Silicon Valley há uns anos estão a ser corrigidas. “Tudo isto tem tendência a melhorar em Portugal. Está a começar a melhorar, porque à medida que vamos tendo startups portuguesas que já tiveram experiência internacional, e fundadores que já regressaram a Portugal, eles podem começar a ajudar os outros.” Feito o diagnóstico, agora trata-se de um problema de comunicação, de passa-palavra. “O que faz falta agora é essa transmissão de conhecimentos, essa dinamização do ecossistema, com os fundadores das empresas a ajudarem e a transmitirem conhecimentos que recolheram noutros sítios, como Silicon Valley, Berlim ou Londres . Isso vai demorar algum tempo, mas já comecei a ver muito desse trabalho de colaboração. Quando vou a Portugal é vulgar ir jantar com founders portugueses que se conhecem bem, que são amigos e que trocam ideias de como é que devem desenvolver o seu produto, de como arranjam a sua equipa de vendas, de como é que constituem a sua empresa.”

Terminadas as pizas, aproveitamos o sol e a esplanada para mais um pedaço de conversa. Pergunto a Pedro Vieira se é decisivo, mesmo nesta área das tecnológicas, de empresas que trabalham na fronteira do possível, o proverbial desenrasca dos portugueses. A resposta é clara, mas não aponta essa como uma característica exclusivamente portuguesa. “É esse desenrasca que leva a uma boa execução nas fases iniciais do projeto. É essencial porque, tal como dizia há pouco, o que vence é a execução e não a ideia. Mas não vejo que os portugueses sejam mais ou menos desenrascados neste mundo da tecnologia, aqui em Silicon Valley, do que os empreendedores de outras paragens.”

Pedro Vieira identifica um outro problema nacional, tema de conversa e debate há já demasiados anos – a ligação entre a academia e as empresas. “O que eu vejo que Portugal tem, que está a começar a explorar, mas onde poderia fazer um trabalho muito melhor, é a exploração da propriedade intelectual. O que nós criamos nas nossas universidades é de topo a nível internacional, mas não se dá o salto facilmente para um produto comercial. Portanto, temos universidades portuguesas onde estão os melhores alunos do mundo, a fazer dos melhores projetos de investigação do mundo, e se estivessem no meio de um ecossistema como o de Silicon Valley, resultava em muito mais empresas criadas com base nessa propriedade intelectual.”

A dimensão do mercado português é outra das limitações. “Sendo um país pequeno, as empresas portuguesas e os nossos empreendedores não vão tipicamente vencer no mercado da aquisição de clientes, de consumidores finais, as chamadas B2C [business-to-consumer]. Aqui, se pensarmos nos Estados Unidos, um empreendedor que começa uma empresa que vai vender alguma coisa ao consumidor final, o objetivo é conseguir chegar a muitas pessoas muito rapidamente. É o perfil do hustler, que sabe fazer user acquisition muito bem. Portugal é um país muito pequeno e o nosso empreendedor não está treinado para isso, mas pode estar treinado para proteger a tecnologia que construiu e que é valiosa em termos de propriedade intelectual. Isso é um valor para os investidores, que veem nessas empresas o valor da tecnologia mais do que o valor do tamanho do mercado local.”

Na viagem em sentido contrário, dos Estados Unidos para Portugal, Pedro Vieira considera que não devemos tentar fazer um Silicon Valley na Europa, simplesmente porque as condições são irreproduzíveis. Agora, este é um jogo em que Portugal deve alinhar, com uma noção clara do que pode fazer melhor. “Acho que Portugal já tem parte das peças deste puzzle no sítio certo, faltam algumas. Falta atrair investidores que estejam mais bem treinados no mundo do investimento, e falta daqui a uns anos começarmos a ver os founders, que já tiveram êxito, que já venderam empresas, como eu, a reinvestir no sistema. Quer em forma de tempo e de know-how quer em forma de capital.”

Pedro Vieira já criou raízes, família, nos Estados Unidos. Ainda assim, e ao contrário de outras vagas de emigrantes, tem nos planos um regresso a casa. “Vejo-me a regressar a Portugal. É sempre difícil dizer quando e como, e em que condições, mas é sempre uma conversa que temos frequentemente enquanto família portuguesa. Nós nascemos os dois em Portugal, a nossa família mais estendida é portuguesa, os nossos pais estão lá e nós passamos muito tempo do ano em Portugal. Nós falamos de viver em Portugal a tempo inteiro.” Até porque, admite, tem uma dívida em relação ao país. “Já aqui estou há 13 anos. Há sempre coisas boas e más nos dois lados. Sei que há algumas pessoas que saíram de Portugal de costas voltadas, porque acham que foram maltratadas. Eu não me incluo nesse grupo. Gosto muito do meu país. Estou aqui fruto da educação quase grátis que recebi em Portugal, mas de qualidade mundial. Portanto, tenho muito a agradecer ao meu país. Ter chegado onde cheguei. Não tenho nada contra Portugal, ou não há nada que não me fizesse regressar a Portugal. Agora, é muito difícil de encontrar um sítio tão fácil e tão bom para viver como Silicon Valley. É um bom problema para ter, portanto.”

Pizzeria delfina

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Jornalista viajou ao abrigo de um protocolo com a flad – Fundação Luso-Americana

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