O vintage saiu à rua sobre rodas para servir comida gourmet

Cartaxo tem uma das maiores fábricas da Europa de construção de carrinhas de venda de comida. Estes negócios aumentam em Portugal, mas o conceito está distante das tradicionais roulottes

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Pelo cheiro a tinta e fibra de vidro não parece que estamos numa fábrica de veículos para a venda de comida na rua – as food trucks -, mas a verdade é que grande parte daqueles que vemos na rua são réplicas dos originais. A Kiosque Street Food, da Verso Mode, é a líder do mercado europeu de food trucks, tem a sua fábrica no Cartaxo e, em média, faz 20 projetos em simultâneo. Dentro de três a seis semanas sairão daqui as carrinhas que vendem gelados artesanais ou vinho nas ruas de Lisboa e café ou pastéis de nata em França ou no Brasil.

Luís Rato, fundador da Kiosque Street Food e também presidente da Associação Street Food Portugal (ASFP), acrescenta que na fábrica têm cerca de 200 projetos em mãos, nas suas várias fases. Números que espelham o crescimento deste negócio que pretende trazer para as ruas comida gourmet e produtos tradicionais.

As ruas de Lisboa são o palco principal para estes carros de venda de comida, principalmente, as áreas turísticas. Belém, Marquês de Pombal ou Príncipe Real são locais onde estes negócios são mais comuns. Tapas com produtos nacionais, tascas típicas, vinhos ou café, vende-se de tudo um pouco numa food truck. À empresa de Luís Rato basta que o cliente chegue com uma ideia base. “Nós ajudamos em tudo, a construir o conceito, o design, o veículo e instalamos todas as partes técnicas necessárias”. A experiência do empresário – que aponta como início do movimento de street food o programa de culinária itinerante Chakall e Pulga, que idealizou – até lhe permite “dizer logo se o negócio tem futuro ou não”.

Futuro é coisa que o setor parece ter neste momento. Vale cerca de 5,7 milhões de euros e continua a crescer. Desde 2015, o número de negócios duplicou, passando dos 200 para os “cerca de 400”, segundo os cálculos da ASFP. O boom aconteceu, explica Luís Rato, com “a chegada da crise”. Acrescenta: “Ficaram desempregadas pessoas com formação superior, com gosto pela cozinha e gastronomia, as lojas fecharam, as pessoas deixaram de ter dinheiro para ir aos centros comerciais e começaram a sair para a rua e o terrorismo noutras paragens também desviou o turismo para Portugal.”

Fernando Sousa está atrás do balcão da Tasca Itinerante, no fundo do Parque Eduardo VII e não podia rever-se mais na descrição de Luís Rato. “Fiquei desempregado em 2012, era bancário, sempre gostei de cozinhar e comer bem, comecei a ver o movimento extraordinário de turistas e investi a indemnização para começar o negócio.” A aposta foi ganha, garante, enquanto vai servindo os turistas de pão com leitão e sandes de presunto e queijo da serra.

A primeira ideia de Fernando era Belém, “mas a licença estava a demorar muito a sair e acabei por escolher o Marquês de Pombal”. Está aqui desde maio de 2015. Esta é uma zona da cidade considerada estruturante e, por isso, a câmara municipal tem “um parecer vinculativo sobre os licenciamentos”, explica a autarquia. Nos restantes casos, são as juntas de freguesia que têm autonomia para licenciar. O mesmo acontece em certas áreas de Belém, para onde, “a câmara municipal e a junta estão, neste momento, a definir um plano de ocupação para este tipo de comércio”, antecipa a autarquia ao DN.

As licenças podem variar e ser pagas mensal ou anualmente. Algumas chegam aos 400 euros mensais e outras aos 2500 anuais. A este investimento junta-se os 15 a 30 mil euros que custa produzir a carrinha ou mota onde se vai instalar o negócio. Em média, os empresários investem entre 20 a 28 mil euros por cada food truck. O investimento fica pago em menos de um ano, na maior parte dos casos, indica um inquérito feito no final de 2015 pela associação.

“Estamos a falar de um negócio que cativa as pessoas. Primeiro o veículo é um ponto de atração, as pessoas querem ver como é, porque esteticamente é bonito e vintage. Depois, a comida é feita com qualidade, com produtos típicos, é um conceito muito diferente das antigas roulottes que são mais populares”, caracteriza Luís Rato.

A tradicional Piaggio APE 50 do Mister Tapas começa por ser um ponto de atração. “Às vezes as pessoas perguntam como metemos tanta coisa aqui dentro. Fazendo um pouco de magia”, sintetiza Jonathan Couto. No espaço que este luso venezuelano lançou com o sócio venezuelano Oliver Gil, há queijo, pão, presunto, azeitonas, fruta, sangria, bebidas espirituosas, vinho, água, amendoins, tremoços, gelo. “Queria vir para Portugal e sempre gostei muito de cozinhar. A ideia era promover os produtos nacionais. Passei 16 anos sem vir cá e quando cheguei em 2012 tudo tinha mudado e percebemos que este era um negócio que podia resultar.” Tendo em conta que enquanto fala com o DN, Jonathan não para de servir e fazer sangria e tapas a turistas e a pescadores que estão em frente ao Museu de Arte Popular, parece mesmo que o negócio vai de vento em popa. “Estamos à procura de uma pessoa para ensinar e poder ficar aqui, quando é preciso ir comprar mais comida, por exemplo”, conta.

Até pode ser porque o dia de sol ajuda ao negócio, mas os food trucks nesta zona da cidade estão cheios. Junto à Torre de Belém, a Wine With a View tem as suas cadeiras com vista todas ocupadas e ainda há clientes sentados no muro com o copo na mão. Vanessa Silva, a enóloga de serviço desta empresa que tem mais Piaggio espalhadas pela cidade, explica que os vinhos “são selecionados para aproveitar a vista, são menos gastronómicos e mais leves”. A acompanhar são vendidas bolachas artesanais, feitas no Alentejo.

A prova de que este é um negócio em crescimento é de que começam a surgir cadeias. É o caso da Weeel -marca de gelado de iogurte artesanal – e da Hot Dog Lovers, que veio do espaço fixo para junto do Padrão dos Descobrimentos, há quatro anos. Com um dos dois tipos de comida mais popular (a par dos hambúrgueres) nas vendas, o sucesso está comprovado.

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