Mude de vida, se não vive satisfeito (está sempre a tempo de mudar)

Gostava de fazer algo diferente? Talvez esteja na hora de mudar de vida. Não é preciso sair do país ou do emprego. Muitas vezes basta começar por mudar de perspetiva, diz a coach Alexandra Vinagre.

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“Muda de vida, se tu não vives satisfeito
Muda de vida, estás sempre a tempo de mudar
Muda de vida, não deves viver contrafeito
Muda de vida, se a vida em ti é de outro jeito.”

Canta o tema original de António Variações, homenageado pela banda Humanos, que a vida não é (nem deve ser) um castigo. A chave da felicidade e sucesso está na mudança que significa, na maior parte das vezes, sair da zona de conforto sem garantias ou colete salva-vidas. “Provavelmente será um processo difícil, incerto e emocional, mas extremamente compensador”, diz Alexandra Vinagre. No seu novo livro Até Onde Quer Chegar?, a coach incentiva a mudança através de exercícios, reflexões científicas e testemunhos pessoais. “Somos cada vez mais confrontados com a mudança e a imprevisibilidade ao longo da vida, mas a maior parte de nós receia precisamente essa incerteza“, explica a autora em entrevista ao Observador.

Até Onde Quer Chegar

O livro foi publicado pelo Clube do Autor e custa 14€.

Porque é que é tão importante mudar?
A nossa vida é feita de mudança. Se a vida é uma constante de mudança, porque é que devemos ter um mindset fixo que nos causa tanta rigidez e tantas vezes nos deixa perder oportunidades? A adaptabilidade é fundamental para estarmos atentos ao percurso que nos possa trazer mais sucesso, concretização e felicidade — seja do ponto de vista profissional ou pessoal. É importante pensar na mudança como uma forma de estarmos abertos a atingir o nosso propósito mas, acima de tudo, para que se possa tirar o melhor partido da nossa vida. Há pessoas que pensam na mudança como algo muito disruptivo. Pensam logo em despedir-se, mudar de país ou de profissão. E, às vezes, a mudança pode só significar mudar a forma como olhamos para as coisas ou como nos relacionamos com os outros. Tudo isto com o objetivo de sermos mais felizes, realizados, bem sucedidos ou o que for importante para essa pessoa. Para tal, temos de ser flexíveis e arranjar uma estratégia para lá chegar.

Como é que sabemos que precisamos de mudar a nossa vida?
Quando está tudo mal é fácil de identificarmos. Por exemplo, queremos reconhecimento no trabalho e não temos. Mas depois há uns sintomas mais subliminares que foi o que aconteceu comigo. Há três anos tinha saúde, trabalho, família e hobbies mas, sazonalmente, assolava-me uma vontade esmagadora de fazer tudo diferente e sentia que me faltava algo. Um algo que não era concretizável em dinheiro, prémios ou status. Comecei a perguntar a mim própria o que faltava na minha vida e percebi que tinha a ver com o contributo que quero deixar no mundo. De facto, um dos sintomas que mais observo à minha volta é perceber que falta algo e que o dia-a-dia de trabalho não nos preenche completamente.

“Há pessoas que pensam na mudança como algo muito disruptivo. Pensam logo em despedir-se, mudar de país ou de profissão. E, às vezes, a mudança pode só significar mudar a forma como olhamos para as coisas ou como nos relacionamos com os outros.”

Falar em mudança é falar da vida, é falar do dia-a-dia, do que nos rodeia. É falar de uma realidade. Podemos não escolher mudar, mas podemos escolher a atitude que temos face à mudança. (Até Onde Quer Chegar?, p.24)

Mudar é fácil ou difícil?
Toda a mudança, mesmo que positiva e racional, envolve um elevado turbilhão emocional, incerteza e a sensação de perda, ainda que transitória. É importante ter essa consciência e saber que é parte integrante do processo. Significa, na maioria das vezes, sair da zona de conforto, estar vulnerável, aprender algo de novo ou até difícil, sem garantias. No fundo, é um processo que é tanto melhor sucedido quanto mais tempo lhe dermos. Ou seja, devemos encarar a mudança como algo que, à partida, é difícil mas extremamente compensador. Tudo porque exige a alteração de muitas coisas enraizadas como determinados comportamentos ou formas de pensar. Claro que vai haver obstáculos, resistências, porque temos hábitos, crenças e medos. No entanto, ajuda se refletirmos sobre o que queremos concretizar, sobre o contributo e o legado. No geral, é compensador. À medida que vamos encarando a mudança como uma oportunidade, o que era difícil passa a ser um desafio. Começamos devagarinho e há uma altura em que as coisas começam a acontecer. O arranque é difícil e à medida que as coisas vão acontecendo torna-se compensador.

Qual é o segredo da mudança?
É um conjunto de várias coisas. A resiliência é importante, advém do facto de mantermos a esperança de que as coisas sejam eventualmente melhores face às adversidades, e acaba por ser um tipo de pensamento otimista. As pessoas resilientes transformam as situações adversas em oportunidades de aprendizagem. Obviamente que não querem que aconteçam coisas más ou indesejáveis, mas adaptam-se procurando as oportunidades escondidas. Mas o principal segredo é olharmos para o que está à nossa volta não como uma resistência mas como uma oportunidade e isso vai sempre bater em alterar hábitos e pensamentos. Se quisermos mudar alguma coisa o nosso primeiro pensamento é que nunca vamos conseguir e aí a mudança torna-se algo completamente assustador porque efetivamente vai ser doloroso. Se escolhermos olhar para o que está à nossa volta como uma forma de nos desenvolvermos, faz toda a diferença.

O que é o “mindset”?

“O mindset pode ser definido como a soma de todo o seu conhecimento, incluindo crenças e pensamentos ou ideias acerca do mundo e de si próprio. É o filtro para toda a informação que chega até si — e para a que projeta para o exterior”, explica Alexandra Vinagre ao Observador. “Carol Dweck, professora de Psicologia na Universidade de Stanford, chegou à conclusão que a forma como cada pessoa perceciona a realidade afeta profundamente a forma como conduz a sua vida, determina se se vai tornar na pessoa que sempre desejou, ou se alcançará as coisas que mais valoriza.”

A partir daí, é importante criar bons hábitos que deem suporte ao que queremos alcançar e é muito importante programarmos o nosso cérebro para ter um pensamento positivo. Tais emoções positivas vão trazer mais alegria, inspiração e gratidão ao caminho da mudança. E quando falo em criar um pensamento com foco na mudança significa criar um mindset que nos permita adotar estratégias e desenvolver competências facilitadoras de novas formas de ser, pensar e agir que nos permita estar alinhados com o que é realmente importante para cada um de nós, criar uma melhor relação com o que nos rodeia e, por fim, construir uma vida que nos inspire, orgulhe e nos traga felicidade, alegria, amor e realização.

Alexandra Vinagre tem 36 anos e atualmente é coach profissional. © Fábio Pinto/Observador

Existem hábitos diários que podem incentivar a mudança?
Sem dúvida. A nível das emoções positivas, por exemplo, um dos hábitos mais saudáveis é escrever sobre gratidão. É fundamental, e como base de qualquer processo de mudança, desenvolver a consciência do que já concretizámos na nossa vida. Desenvolver uma perspetiva de gratidão e reconhecimento pelo que já existe e que nos traz felicidade é um ponto de partida determinante e, acima de tudo, um primeiro exercício de escolha. A tal que implica ver o mundo como um lugar amigável, colocando o foco nas possibilidades e não nos obstáculos ou nas dificuldades.

Cultivar um pensamento positivo, manter uma atitude de resiliência, integrar a vulnerabilidade como forma de viver e cultivar emoções positivas representam alguns dos hábitos fundamentais para reprogramar o cérebro, desenvolvendo os estados positivos que contribuem para o sucesso da mudança. Depois podemos começar a gerir o tempo de forma eficaz em função das prioridades da nossa vida, sem esquecer o contexto atual. Um dos grandes desafios que surgem quando se implementa algo de novo é de que forma se pode arranjar tempo para integrar novas atividades e novos hábitos. Há que criar estratégias para gerir melhor o tempo em função das atividades em que nos queremos focar ou evitar.

Considera que os portugueses têm medo de sair da sua zona de conforto?
De um modo geral, as pessoas tendem a resistir à mudança. Mesmo confrontadas com situações extremas, que podem pôr em causa a sua saúde e a sua vida, o comportamento não é muito diferente. O maior desafio à mudança é o nosso comportamento e, nessa área, o nosso cérebro é extremamente eficaz e persistente quando se trata de manter o status quo. Como portugueses somos um povo empreendedor e, historicamente falando, nunca tivemos medo de sair da nossa zona de conforto. Mas o ser humano, no geral, está construído para ter necessidades básicas como segurança, conforto e alimentação e isso faz com que as pessoas tenham alguma resistência à mudança. É a forma de nos protegermos e preservarmos a nossa integridade.

Paradoxalmente, não seríamos humanos se não houvesse mudança. Evoluímos de organismos unicelulares, pelo que a adaptação corre-nos nas veias e, ao longo da vida, estamos orientados para a aprendizagem e para o crescimento. (Até Onde Quer Chegar?, p.41)

Quando se fala de zona de conforto referimo-nos a situações ou comportamentos que nos fazem sentir seguros e relaxados. Contudo, é fora da zona de conforto que se enfrentam novas formas de pensar e agir, que se abrem novas possibilidades e são estimuladas a aprendizagem e a criatividade. É muitas vezes aí que se vivem os sonhos, as emoções, as experiências que nos fazem crescer e expandir. Qualquer que seja a situação em que desafie a sua zona de conforto, esta encerra sempre a possibilidade de aprendizagem e de experenciar algo de novo que servirá para expandir as suas capacidades e conhecimento e abrir portas a novas realidades e a novas crenças.

Texto de Sílvia Silva, fotografia de Fábio Pinto.
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