Cachaça conquista a Europa, mas ainda tem obstáculos a enfrentar

O produto genuinamente brasileiro vem ganhando importância e está expandindo seus horizontes para a Europa, porém a bebida ainda enfrenta preconceitos e dificuldades para elevar as vendas

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Ao longo de seus séculos de vida, a cachaça, bebida surgida entre os escravos pouco depois do descobrimento do Brasil, vem ganhando importância como produto genuinamente nacional e tem sido motivo de reuniões entre produtores, técnicos e apreciadores. A única bebida genuinamente brasileira está expandindo seus horizontes e passando até mesmo a ser degustada na Europa. A Confraria de Cachaça Copo Furado, fundada em 1994 e que reúne 37 apreciadores uma vez por mês para divulgar a cachaça de alambique e procurar fazer com que o produto tenha cada vez mais qualidade, tem, desde o dia 23 de maio de 2006, uma sede na França. Foi um salto qualitativo, sem dúvida.

Esse aparente sucesso, no entanto, ainda não é capaz de eliminar o preconceito, mudar a legislação a seu favor ou assegurar elevação nas vendas, até mesmo no mercado interno. Roberto Alves Fernandes, presidente da Confraria, enfatiza que a idéia do grupo sempre foi a de valorizar a bebida nacional, entendida como aquela de qualidade, sem contra-indicação, sem metal pesado ou elementos cancerígenos e que não deixa ressaca no dia seguinte. Para os iniciados, esse lema parece óbvio, mas para quem nada entende e quer e tornar um apreciador, a análise não é tão simples. De acordo com João Luiz de Faria, confrade e produtor da Cachaça Magnífica, até hoje um leigo não tem dados suficientes para reconhecer, com segurança, se um produto exposto em um estabelecimento comercial qualquer é ou não de boa qualidade. Detalhes para que rótulo e contra-rótulo contenham mais informações e facilitem a identificação ainda estão sendo discutidos.
Marcílio Velloso, ex-presidente da Confraria que ficou no cargo durante 12 anos, conta a história desta reunião de amigos e admiradores. A Confraria de Cachaça Copo Furado foi fundada em 13 de agosto de 1994, pelo jornalista Marcelo Câmara. Nove meses depois, Marcílio se apresentou e foi aceito. Ele já envelhecia a bebida, conhecida com o nome de Relíquia, desde 1985, no sítio Pouso Alegre, em Miguel Pereira. Eu ia sempre tomar cachaça com o vizinho. Aí decidi entrar no negócio. Comprei o primeiro barril de 50 litros, só para experimentar. Gostei e cheguei a envelhecer 5 mil litros, disse, com o bom humor que lhe é peculiar. A Confraria tem um slogan, que todos bradam no início e no fim de cada reunião: Unidos beberemos, sozinhos também. O objetivo, destaca Marcílio, é que bebamos juntos. Mas saborearemos de qualquer jeito. Tenho a mania de dizer que uma idéia que ocorre um dia efenece é pobre, mas a que vinga 12 anos é vitoriosa.Em maio, em Belo Horizonte, a Câmara Setorial da Cadeia Produtiva da Cachaça não chegou a uma conclusão sobre se usaria os termos cachaça de alambique ou bidestilada (de coluna). O resultado, caso seja definido, só será conhecido em agosto, em Brasília. João Luiz lembra um detalhe que a muitos passou despercebido: quem acirrou o preconceito foram os produtores da cachaça industrial, por considerarem pejorativo o termo cachaça e optarem por colocar aguardente de cana ou caninha no rótulo.

Mas é importante saber de que tipo de cachaça estamos falando. Paulo Magoulas, confrade e também presidente da Academia Brasileira da Cachaça, explica que a artesanal apareceu há mais de 450 anos e só não desapareceu pela resistência dos produtores de Minas Gerais. Isso porque a industrial passou a ser feita de maneira totalmente diferente, para ter menor custo. Do que vai para o exterior, 90% é da industrial. Os estrangeiros não têm a oportunidade de conhecer a verdadeira cachaça artesanal. O Brasil, em 2005, produziu um total de 1,5 bilhão de litros. Exportou cerca de 14 mil litros, menos de 1%. Deste ínfimo pedaço de 1%, a artesanal ficou só com 10%, ou seja, 250 mil litros anuais, ou um sexto da produção. Enquanto isso, as industriais fazem mais de 300 mil litros por dia, disse.

Essa diferença esmagadora ocorre, segundo Magoulas, porque no processo artesanal o produtor planta a própria cana, seleciona com cuidado, com higiene e não utiliza produto químico. A cana é moída até 24 horas depois de cortada e a fermentação dura de 17 a 25 horas. Na industrial, segundo o confrade José Alberto Kede, a fermentação não passa de cinco horas. Não se produz nem seleciona a cana. Além disso, o alambique da artesanal só trabalha com o coração da produção, retira-se a cabeça e a cauda. Significa que os dez primeiros e os dez últimos litros são jogados fora porque só têm álcool e impurezas. As industriais usam coluna, algo parecido com uma usina de álcool, e aproveitam tudo que é destilado, assinala Kede.

O governo brasileiro, recentemente, deu pequeno apoio aos produtores artesanais. O Programa Brasileiro da Cachaça, feito aos auspícios do Ministério da Agricultura, não libera verbas, mas promove encontros, faz programa de excelência, dá Selo de Qualidade. A cachaça tem que ter atributos considerados ideais, componentes controlados, como por exemplo, o cobre até 0,5% – o ponto ótimo é 0,1%. A única do Rio que tem este selo é a Coqueiro, de Paraty. As industriais jamais ganharão o Selo de Qualidade. Não quer dizer que sejam ruins, dentro das características delas. Mas, o que determina o sabor é a fermentação. Dá aroma, paladar e aparência mais sensível. A artesanal não deixa cheiro. Se você esfregá-la na pele, fica um aroma de cana. A industrial tem cheiro de álcool. Trava, ensina Magoulas.

Se a situação interna revela essas divergências, as dificuldades externas são ainda maiores. De acordo com João Luiz, as multinacionais que dominam o mercado de destilados não têm a cachaça em seus portfólios e não se interessam em colocá-la à venda. Não querem pagar o custo de colocar um novo produto no mercado, disse. Para exportar tem-se que encontrar outros caminhos, como cooperativa. Vários produtores preenchem um só contêiner. João Luiz exporta cerca de 11 mil litros anuais para a Inglaterra. Mas acachaça de alambique chega lá por 1,5 vez mais cara. O item mais pesado é o imposto sobre a exportação, da ordem de 5 libras. E o frete custa US$ 1.500 para grandes ou pequenas empresas. Venci, divulgando o gosto, aceitando cobrar menos, confessou. E se no Brasil o termo cachaça foi condenado, no exterior a bebida ainda é conhecida como o conhaque brasileiro. Tito Sérgio de Almeida Moraes tinha uma distribuidora de bebidas no Maranhão. Criou lá o cantinho da cachaça, para degustar e vender. Em 2000, em Niterói, abriu a distribuidora O Tonel & Pinga. Já teve mais de 800 marcas à venda, hoje tem 300 e deve reduzir mais, porque quer manter as de boa qualidade. Para exportar, encontrou inúmeras barreiras. Consultou um especialista para aprender os mecanismos legais e o credenciar como exportador. Quando achava que tinha vencido todo o processo, a Receita Federal mudava as regras e eu começava tudo de novo. O estranho é que eu tentava tirar um documento, mas me exigiam requisitos de empresa de grande porte e um pedido pronto do importador. Cheguei a entrar com o processo simplificado. Na hora de embarcar, veio a célebre pergunta: cadê o pedido? Meu Deus! Cachaça não é coisa do mal, brincou Tito.

Como lembra o confrade Sérgio Marba, há também uma lenda, nociva à cachaça de boa qualidade, que diz que caipirinha tem que ser feita de cachaça ruim. Uma heresia. E por isso que nós, membros da Confraria de Cachaça Copo Furado, temos a missão de pedir em qualquer lugar uma cachaça de boa qualidade e orientar quem não a tem na prateleira, salientou. Roberto Fernandes leva a sério essa missão da Confraria. Já fez a segunda geração de admiradores da cachaça. Sua filha, Maria Eduarda, estudante universitária, seguiu as orientações do pai e passou a fazer festas nas quais só se degusta cachaça. O engenheiro Antônio Augusto de Souza, produtor da Maxicana, aconselha que a caipirinha seja feita apenas com o suco do limão. A casca tem perpeno, substância altamente agressiva às mucosas internas. Espreme no olho para ver como arde, lembra.

Augusto defende que um álcool superior para a cachaça é tão básico quanto sal para o feijão. O problema é controlá-los. O cuidado é fundamental, principalmente com relação ao cobre e ao álcool pesado, os quais podem causar cirrose e romper as células do fígado, quando entram na corrente sangüínea. Eles endurecem as células e levam até 72 horas para serem eliminados. Saem pelos poros e dão dor de cabeça no dia seguinte. O Rio de Janeiro tem cerca de 100 alambiques, só 45 registrados, revela. Augusto começou a produzir cachaça artesanal depois que perdeu um amigo de infância vítima de cirrose. Na sua fazenda, os peões já brincavam de fabricar cachaça para o consumo interno. Um dia, Augusto leu no jornal que algumas crianças morreram de cirrose, sem nunca ter ingerido bebida alcoólica. Mas comiam doce feito em panela de cobre. Começou a sua pesquisa. Visitei mais de 30 fazendas, em dois anos. Criei um alambique diferenciado porque, depois de uma conversa séria com um especialista, descobri que o problema do cobre era físico e não químico. Isto é, a bebida só pode ter 5 mililitros do metal. Augusto admite que algumas poucas cachaças industrializadas não deixam resíduos acima do permitido, mas o problema que ele aponta é que os grandes produtores muitas vezes não se importam com o sabor apurado. Augusto produz também um drink de cachaça chamado Gabriela, que descobriu por acaso, quando pegou um resfriado. Lembrei de minha mãe e resolvi fazer um chá de canela. Coloquei cravo porque é anestésico e adocei com melado. Botei cachaça também. Tomei, tive um suadouro danado. Levantei duas horas, saiu um peso do meu corpo. E pensei: criei um excelente remédio.

Como surgiu a cachaça

A confreira Cláudia Fernandes conta que a cachaça surgiu pouco depois do descobrimento do Brasil, entre os escravos, que faziam o mel do caldo de cana-de-açúcar. Certo dia, pararam para descansar e o caldo fermentou, o álcool evaporou e as gotículas que se alojaram no teto da senzala caíram em suas feridas abertas. Eles sentiram arder, por isso o primeiro nome, água ardente. Resolveram, então alambicar, isto é,(depois da fermentação em panela de cobre, quando o líquido vira álcool), aquecer o líquido ecolocá-lo em estado gasoso. Nesse estado, o álcool passa por um tubo resfriado e retorna ao estado líquido. Esse processo é lento. O líquido começa a pingar do outro lado do tubo. Ganhou, então, o nome de pinga.
A cachaça artesanal também pode se envelhecida, mas não menos de um ano e não mais de três anos. Isso a faz perder um pouco do teor alcoólico e apura o sabor. Há 25 tipos de madeiras catalogadas. Os mais usados são o carvalho, bálsamo, jequitibá, umburana e ipê amarelo. O ideal é que o barril não seja novo, para não guardar muito o gosto da madeira, diz.Depois que se descobriu a cachaça, os negros passaram a ter só uma refeição por dia. À noite, tomavam a cachaça e ficavam alegres, conta Cláudia Fernandes. Ela explica também que os primeiros engenhos de que se teve notícia foram em São Vicente, São Paulo, e depois em Paraty, no Rio de Janeiro. Paraty passou também a ser um nome que se dá à cachaça. As dificuldades da bebida, no entanto, não começaram agora. Os colonizadores chegaram a proibir a sua produção no Brasil. Queriam que fosse comercializada em Portugal. Portugal criou um imposto que acabou sendo o responsável pela reconstrução de Lisboa, depois do terremoto de 1755. Na verdade, a arrecadação das divisas geradas pela cachaça rendeu muito lucro aos colonizadores, relata Cláudia Fernandes. A bebida virou até moeda de troca. Os holandeses invadiram o Brasil e pediram cachaça como resgate para deixar a cidade, destacou. Mas, apesar de tudo isso, a cachaça era considerada bebida de pobre, tinha a fama de dar dor de cabeça, mau hálito e ainda ressaca no dia seguinte. É foi aí que começou a ser estabelecida diferença entre a cachaça de alambique e a de coluna.

 

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