Brasileiro, no Vale do Silício, está criando tecnologia para mudar a Terra

Essa nova tecnologia pode mudar vários setores da economia e melhorar um dos principais: a produção de alimentos

Felipe Moreno Felipe Moreno é editor-chefe do StartSe e fundador da startup Middi, era editor no InfoMoney antes
25 de novembro de 2016

No final de setembro, tive o prazer de fazer uma das entrevistas mais bacanas que eu já tive na vida. Foi com um brasileiro que está mudando algumas (plural!) das principais indústrias do mundo: Fábio Teixeira, fundador da Hypercubes, responsável por um satélite autônomo capaz de monitorar com precisão o solo.

O tempo passou e eu acabei não fazendo a matéria. Uma história tão sensacional assim, porém, eu tinha que resgatar. Tão bacana é o projeto de Fábio Teixeira que ele teve a visitinha de uma pessoa um tiquinho conhecida no mundo de business do Brasil, Beto Sicupira, da 3G Capital e quarto homem mais rico do Brasil (atrás de seus sócios Jorge Paulo Lemann, Marcel Telles e do banqueiro Joseph Safra).

Esse encontro aconteceu (e está no final da matéria) na Singularity University, um dos ambientes de inovação e tecnologia mais importantes no Vale do Silício – e muito importante para a companhia de Teixeira. “A Hypercubes nasceu da Singularity. Somos dois Alunos da SU, fui um dos primeiros brasileiros daqui, da turma de 2010. E no final de 2014 encontrei o meu sócio, Brian Lim, aqui”, diz o empreendedor.

Tudo começou quando eles estavam tentando competir em uma competição da NASA, a agência nacional. “Eu estava montando um time para competir em um challenge de nanosatellites da Nasa, para deep space”, conta. Só que o prêmio não era tão bom a ponto de compensar a criação da tecnologia necessária. “O prêmio da Nasa não cobria os preços de pesquisa, e pivotamos”, completa.

Pivotar, no caso deles, foi para a construção de um dos negócios com maior potencial possível – algo capaz de revolucionar a própria terra. “Montamos uma empresa que produz uma constelação de nanosatellites com machine learning que podem analisar a composição química do material de solo”, destaca.

Essa nova tecnologia pode mudar vários setores da economia e melhorar um dos principais: a produção de alimentos. “Isso permite a gente olhar para uma plantação e determinar nível de fertilidade do solo, stress, espécies invasoras, doenças e até os nutrientes que estão presentes nas flores das plantas. Esse é um outro nível de informação, que pode levar a produção de comida para o estado da arte”, diz Teixeira.

Para ele, esse é um real benefício que a Hypercubes pode fazer para fazer do mundo um lugar melhor. “Esse é um problema que nas próximas duas décadas temos que enfrentar. Em 2050 teremos 10 bilhões de pessoas no planeta, e vamos precisar produzir mais comida nas próximas décadas que nos últimos 10 mil anos juntos”, destaca.

Contudo, há muito mais negócios que podem ser melhorados com a tecnologia produzida pela Hypercubes. “A agricultura de precisão é só uma vertical. Podemos ajudar a prospectar terrenos para mineração, monitoramento de vazamentos”, acredita.

Muita informação

E como a Hypercubes pode fazer isso? Bom, o funcionamento é simples: os satélites dão voltas e mais voltas no planeta, analisando o solo constantemente e enviando os dados sobre ele. “São 100 terabytes a cada vez que o satélite percorre a terra, a cada 90 minutos. Usamos machine learning para processar os dados no próprio satélite”, explica o fundador da Hypercubes.

Os dados recebidos, portanto, são úteis para o pessoal em terra analisar e tomar as mais diversas decisões necessárias para melhorar o funcionamento da agricultura, por exemplo. Ele é capaz de ver se o solo está com um nível baixo de nutrientes e precisa de um reforço, por exemplo. “É um mecanismo de busca autônomo, que nos permite transmitir dados em tempo real”, conta.

Saindo da Garagem

Se os planos são ambiciosos, a startup ainda precisa tirar seus projetos do papel. “A Hypercubes é uma startup, somos duas pessoas atualmente. Eu e Brian. Recebemos um investimento da Singularity, fomos umas das duas empresas que foram aceitas no processo de aceleração da própria SU. Tivemos um investimento inicial de US$ 100 mil”, conta o empreendedor.

Por enquanto, eles ainda estão em processo de “sair da garagem” – ou seja, ainda estão em early stage. “Saímos da Aceleradora em dezembro do ano passado, estamos saindo da garagem e abrindo a empresa para investimento”, explica.

Com a casa arrumada, o próximo passo é começar a validar a tecnologia que os dois já desenvolveram. “No ano que vem vamos mandar um instrumento específico para a Estação Internacional Espacial, para validar o nosso cenário base e algumas tecnologias”, conta Teixeira.

Com essa validação e alguns ajustes, eles já estão prontos para lançar o primeiro satélite para fora da terra – dando início ao serviço prestado pela Hypercubes. “Depois, vamos lançar o próprio satélite, que envolve uma série de tecnologias como comunicação, painéis solares, controle de altitude. Gira em torno de US$ 300 mil lançar esse tipo de satélite, isso é muito mais barato que o custo de satélites convencionais”, destaca Teixeira.

São necessários, porém, vários satélites percorrendo a terra para conseguir acesso em tempo real – e isso requer um investimento elevado para conseguir. O jeito é começar com uma constelação menor. “A constelação deve iniciar com 10 satélites, mas para cobrir todo o planeta diariamente precisaria de 40 a 50 satélites”, diz.

Tudo vai ficar mais barato em pouco tempo – parece que é uma tendência ficar mais barato empreender, independentemente do seu segmento. “Em um time frame de cinco anos, deve cair bastante por causa do novo foguete da SpaceX. Vai ser o momento em que todo mundo vai lançar satélites para o espaço”, conta.

Monetização vs. trabalho pela humanidade

Para um mundo melhor, a Hypercubes pode fazer monitoramento ajudando tanto grandes clientes, que pagam, quanto realizar o trabalho apenas para beneficiar a humanidade. “Por um lado, eu tenho grandes corporações por trás da produção de comida, mineração, oil and gas. Por outro lado, temos o monitoramento de água no planeta, que é para todo o mundo”, destaca Teixeira.

Para tal, os clientes que pagam devem rentabilizar a operação que permita que o trabalho seja feito em prol de todos. “Os recursos das grandes empresas e governos podem sustentar o que queremos produzir para a sociedade”, explica.

O que não significa que instituições e governos, que teoricamente representam a sociedade, não possam contratar a Hypercubes para realizar trabalhos que sejam benéficos para a humanidade. “Nosso primeiro cliente é a Nações Unidas, que tem um programa para acabar com a fome”, conta o empreendedor.

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