Beaubourg, 40 anos: de “fábrica horrível” a centro favorito de arte e convívio em Paris

O Centro Georges Pompidou, mais conhecido como Beaubourg, completou 40 anos no dia 31 de janeiro. Um dos centros culturais mais visitados do mundo, o local foi muito criticado na sua inauguração pela arquitetura ultramoderna, que destoava dos prédios antigos da cidade. Hoje, a armação metálica gigantesca faz parte da imagem da capital francesa.

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As exposições e atividades pelos 40 anos do Beaubourg vão até o fim de 2017 DR

Impossível para quem passa pelo bairro histórico do Marais não ver a estrutura retangular imensa, de vidro, com tubos coloridos e escadas rolantes aparentes que levam os visitantes até o 6° andar, de onde se pode admirar uma vista incrível de Paris . A construção foi projetada pelos arquitetos Renzo Piano, Gianfranco Franchini e Richard Rogers, com a colaboração do inglês Edmund Happold. Foi o presidente Georges Pompidou que idealizou a criação de um centro multidisciplinar dedicado à arte do nosso tempo, no coração da capital; ele morreu em 1974, sem ver seu sonho realizado. Coube ao seu sucessor, Valéry Giscard d’Estaing, inaugurar o local em 31 de janeiro de 1977.

O primeiro grande desafio do Centro foi enfrentar a reação negativa dos parisienses à sua arquitetura inovadora demais. A polêmica foi enorme e a construção era definida pelos habitantes como “uma refinaria monstruosa”. Brigitte Lehalle, diretora-adjunta do Museu de Arte Moderna e Contemporânea do Beaubourg, lembra da avalanche de reações negativas na época: “A ideia foi a de criar um edifício totalmente novo, que chocou muito os parisienses quando foi aberto porque parecia uma fábrica. Mas a originalidade era que o público podia encontrar ali todas as disciplinas artísticas e circular entre música, arte, cinema, enfim, todos os domínios culturais do século XX.”

Uma visitante francesa de 51 anos, Constance, entrevistada na fila da entrada, lembra bem das críticas: ” Há 40 anos eu tinha 11 anos, e vim aqui fazer uma redação para a escola cujo tema era ‘Você é contra ou a favor do Centro Pompidou?’ Já podem ter uma ideia da efervescência do tema naquele momento. Eu escrevi os argumentos dos meus pais, disse que o prédio era horrível, que parecia uma fábrica e que a França já tinha muitas fábricas, então, por que construir mais uma no centro de Paris? Mas, lá no fundo, eu sempre achei esse lugar extraordinário”, ela confessa.

Espaço de convívio, cultura, lazer…

Pessoas sentadas em frente ao Centro Beaubourg, em ParisDR

Uma das grandes atrações do Beaubourg é o próprio Beaubourg. E se os turistas vão conhecê-lo para descobrir suas coleções, os parisienses, com o tempo, o integraram no seu cotidiano e passaram a frequentar os seus espaços, independentemente das exposições.

Já na entrada sentimos o convívio, em frente à grande praça inclinada, a praça Beaubourg. Artistas de rua desenham retratos de turistas, malabaristas e engolidores de fogo fazem espetáculos, e cantores entoam músicas de seus países, do flamenco aos cantos sagrados hindus, passando pelo rock e a bossa nova. Nos dias de calor, a grande área se torna ponto de encontro de amigos, sentados em círculo com cervejas e sanduíches.

A Biblioteca também é um ponto de encontro. Ali, além de pesquisas e leituras, as pessoas também podem ler os jornais internacionais do dia, ver as televisões do mundo inteiro, encontrar pessoas e fazer novos amigos, como disse à TV francesa uma senhora que frequenta o Centro todos os dias. “Gosto de ver os estudantes estrangeiros”, ela diz. Nori, uma japonesa apaixonada por cinema independente, adora ir às sessões para encontrar outros aficionados desse tipo de filme: “É uma boa oportunidade para trocarmos ideias e dicas de novos diretores e festivais”.

A livraria e a butique do Beaubourg, com centenas de livros especializados em artes e reproduções de peças de design de artistas famosos, também são procuradas para quem quer oferecer um presente diferente. A atriz Anne-Lise, moradora do bairro, acabou de comprar uma capa de celular criada pelo estilista francês Christian Lacroix: “Vou dar de aniversário para minha irmã. Aqui sempre encontro alguma coisa especial, diferente”.

Acervo e composição

Serenata, óleo de Pablo Picasso, 1942© Succession Picasso © Georges Meguerditchian – Centre Pompidou,

O Centro Pompidou reúne três instituições de renome: o Museu de Arte Moderna e Contemporânea, a Biblioteca Pública de Informação (BPI) e o Ircam – um dos mais respeitados institutos de música e pesquisas acústicas.

O tempo da rejeição ficou no passado. O Beaubourg recebeu 3,3 milhões de visitantes em 2016, que puderam admirar, em exposições temporárias e permanentes, todas as correntes artísticas dos séculos XX e XXI. Do fauvismo à arte abstrata, passando pelo cubismo e surrealismo, o Centro oferece um percurso completo da criação artística dos últimos 110 anos. Estas são as suas coleções:

– Arte moderna, com mais de 7.000 obras de 1.535 artistas (de 1905 à década de 1960), com trabalhos de Henri Matisse, Pablo Picasso, Constantin Brancusi, Marcel Duchamp, entre outros;

– Arte contemporânea (da década de 1960 a 1990), com mais de 2.000 obras de 750 artistas, entre eles, Francis Bacon, Mark Rothko, Andy Warhol, Bill Viola;

– Arte contemporânea (a partir da década de 1990) com 400 pinturas, esculturas e instalações de Olafur Eliasson, Yaël Bartana, Karla Black, Guyton Walker…

– Fotografia: a maior da Europa, com mais de 40.000 fotos e mais de 60.000 negativos, que contam a história da fotografia moderna e contemporânea. O destaque é a fotografia das décadas de 1920 e 1930, com imagens de Man Ray, Brassaï e Constantin Brancusi.

– Design: com mais de 5.000 peças francesas e internacionais criadas por cerca de 400 artistas, em diálogo permanente com as outras expressões das artes plásticas.

– Cinema: cerca de 1.300 filmes experimentais, artísticos, instalações cinematográficas e vídeos. Da “Viagem à lua”, de Georges Méliès (1902) ao Untitled de Trisha Donnelly (2015), o conjunto aborda mais de um século de trabalhos que se desenvolveram à margem do cinema comercial.

– Artes Gráficas: todas as obras sobre papel, num total de 20.000 esboços e estampas. A parte histórica do acervo, de 1905 a 1960, tem trabalhos de Antonin Artaud, Victor Brauner, Marc Chagall, Robert Delaunay, Jean Dubuffet, Marcel Duchamp, Vassily Kandinsky, Henri Matisse, Joan Miró.

– Novas Mídias: é a mais importante do mundo, com 160 instalações e 2.000 obras em diversos formatos. Algumas criações emblemáticas são New Skin, de Doug Aitken, Hors-Champs, de Stan Douglas, Corps Étranger, de Mona Hatoum, SWITCH, de Tony Oursler, Zapping Zone (Proposals for an Imaginary Televison) e Immemory de Chris Marker.

A Biblioteca, espaço de leitura e humanidade para os imigrantes

Leitura de jornais estrangeiros é uma das atividades mais procuradas na Biblioteca© vinciane verguethen

A BPI é a maior biblioteca pública da Europa. Ela recebe cerca de 4.000 pessoas por dia, que podem consultar livros e utilizar os serviços gratuitamente.

A diretora Christine Carrier explica que a biblioteca tem várias missões: “Uma missão cultural muito forte de acesso ao conhecimento acadêmico, universitário, mas também ao conhecimento através da leitura de obras literárias, de histórias em quadrinhos, de outros meios. Tem também uma função social. Nós estivemos diante de uma onda de imigrantes que vieram à biblioteca porque tinham necessidade de ficar em contato com suas famílias, e a biblioteca tem computadores com internet”, ela conta.

Além de ateliês de aprendizagem de idiomas, o local também oferece uma série de cursos para a vida prática como informática, mecânica e até as leis do trânsito na França.

Ircam – a música além da própria música

O Ircam, Instituto de Pesquisa e Coordenação Acústica na Música, é um dos maiores centros de pesquisa pública do mundo, consagrando-se à criação musical e à pesquisa científica. Concertos, festivais e cursos compõem as atividades do Instituto, que tem 160 colaboradores, foi fundado pelo maestro Pierre Boulez e hoje é dirigido por Frank Madlener.

Artistas brasileiros no Pompidou

O Brasil também tem seu espaço no Museu de Arte Moderna e Contemporânea, com obras de Tarsila do Amaral, Cândido Portinari, Di Cavalcanti, Ernesto Neto, Hélio Oiticica, Lygia Pape, Lygia Clark, Mira Schendel, Oswald de Andrade (Manifesto da Poesia Pau Brasil), entre outros.

O 40° aniversário do Centro Pompidou será celebrado durante todo o ano de 2017, com exposições e eventos em 40 cidades francesas.

A “fábrica horrorosa” é hoje um dos locais mais queridos de Paris, uma referência para todas as idades e todas as nacionalidades.

Veja o vídeo legendado:

 

 Leticia Constant da RFI
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