A Google atribuiu 490 bolsas a programadores portugueses. As apps do futuro são deles

Andrés Martinez Ortiz é responsável pelo programa de bolsas de estudo da Google para a Europa. Em entrevista ao Observador, explicou o que têm os portugueses de diferente dos outros programadores.

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Quase 5% das 10 mil bolsas de estudo que a Google lançou na Europa tiveram como destino Portugal. Foram cerca de 490 os programadores Android que puderam aceder à iniciativa que o gigante da tecnologia lançou juntamente com a Udacity e o Grupo Bertelsmann. Entre as grandes cidades, Lisboa foi a quarta com mais bolsas atribuídas no curso intermédio de Android, destinado para pessoas que já têm entre um e três anos de experiência. Para a edição de 2017, a Google anunciou que vai apoiar 75.000 novas bolsas de estudo para quem quer aprender a programar para o sistema operativo Android.

Ao Observador, Andrés Martinez Ortiz, responsável da Google EMEA (Europa, Médio Oriente e África) pelas relações com programadores, explicou o que têm os portugueses que os outros não têm: uma forte concentração de pessoas à volta das universidades, talento tecnológico e uma ligação “muito boa” ao ecossistema de startups. E deixa três conselhos: apostem na interação em comunidade, porque é daí que a inovação vem, apostem em sistemas abertos onde não há barreiras para sistemas, treinos ou ferramentas, e que aproveitem esta “grande oportunidade” para trabalhar em tecnologia. “Temos nas nossas mãos o desenvolvimento das aplicações do futuro. Vocês podem fazer parte do desenvolvimento do futuro, deste ecossistema de inovação.”

“Acho que há uma concentração de universidades em Lisboa e no Porto e essa densidade é um dos maiores desafios que todos os ecossistemas enfrentam: é preciso pôr as pessoas incríveis juntas para que tenham uma missão. E vocês já têm isso”

O que é que os programadores portugueses têm de diferente dos outros?
Portugal está a implodir de atividades com programadores. Ainda recentemente decorreu o Pixels Camps, que foi um sucesso, e nós temos realmente uma boa ligação com os programadores portugueses. Temos um grupo, o Google Developers Group, que tem alguns membros de Portugal e além desta estrutura temos uma relação profunda com os programadores que estão no Porto, em Braga, Coimbra e em Lisboa. Acho que foi há três semanas que convidámos alguns a participarem no nosso evento anual e percebemos que há uma forte ligação entre os programadores europeus, especialmente entre os portugueses e os espanhóis, que estão muito próximos.

Vemos que há muitas coisas a acontecer e que há um grupo forte de programadores no Porto, Coimbra e em Lisboa. Diria que a relação que têm com o ecossistema de startups — talvez porque Portugal está a ir mesmo muito bem no que diz respeito à aposta em startups — é muito boa. Temos estado a trabalhar para ligar a comunidade de programadores às iniciativas de startups em Portugal e o meu feedbacké muito bom. Estamos a convidá-los para atividades em Portugal, mas também noutros sítios na Europa.

Mas que características os distinguem? É bastante comum elogiarem a qualidade dos programadores portugueses.
Ainda não visitei Portugal as vezes suficientes, mas acho que há aqui uma coisa importante que está relacionada não só com os programadores, mas com a generalidade dos empreendedores e das pessoas que trabalham com inovação e tecnologia. Acho que há uma concentração de universidades em Lisboa e no Porto e essa densidade é um dos maiores desafios que todos os ecossistemas enfrentam: é preciso pôr as pessoas incríveis juntas para que tenham uma missão. E vocês já têm isso: têm um hub muito importante em Lisboa e no Porto e percebe-se que têm um grande conhecimento em tecnologia. Acho que isto acontece por causa desta concentração de pessoas à volta das universidades. É algo mesmo muito bom.

Outro aspeto interessante é que os portugueses falam melhor inglês do que os espanhóis, por exemplo. Tenho muitos programadores portugueses que trabalham facilmente com programadores do Reino Unido ou de outros países. E também há outra coisa que vemos também, por exemplo, em Israel — os países pequenos com mercados pequenos basicamente obrigam as pessoas a ir para fora e a encontrar oportunidades, negócios, a desenvolver relações com empresas e ecossistemas maiores. Por isso, acho que destacaria um backgroundtécnico muito forte, a facilidade que têm em falar inglês e esta necessidade de irem para fora procurar outros mercados e oportunidades.

“Portugal tem um ecossistema de startups muito interessante. Acho que estão a fazer tudo muito bem. Talvez enfrentem o mesmo desafio de toda a gente: a falta de talento tecnológico”

Devíamos estar a promover melhor este talento tecnológico?
Portugal tem um ecossistema de startups muito interessante. Acho que estão a fazer tudo muito bem. Talvez enfrentem o mesmo desafio de toda a gente: a falta de talento tecnológico. Como sabem, estamos aqui para ajudar e este até é o principal motivo para estarmos agora aqui a conversar. Honestamente, vejo as startups a trabalhar com outros países, vejo programadores estrangeiros a trabalhar como freelancers a partir de Portugal mas para empresas na Europa… Acho que há um problema global que é a falta de talento tecnológico, mas não acho que seja uma questão específica dos portugueses. Até porque vocês estão a trabalhar bem com as startups, não só por causa da Web Summit, mas por exemplo da Startup Lisboa, que está a fazer um trabalho incrível, da Startup Braga, da UPTEC e da Beta-i. Estive no verão a colaborar com a Beta-i na Academia de Inovação Europeia. Temos de trabalhar juntos para aumentar o número de pessoas que trabalham em tecnologia.

Está a relacionar muito com o ecossistema de startups, mas li que 40% das apps para dispositivos móveis são desenvolvidas nos tempos livres dos programadores.
É uma situação interessante. Analisámos os dados do ecossistema mobile e basicamente tudo está aberto. Podemos ter 40% do ecossistema global a trabalhar em mobile de graça ou movido por interesses económicos, mas se olhares para os departamentos de Investigação & Desenvolvimento das maiores empresas do mundo, não há nenhuma empresa com este número de pessoas a trabalhar em investigação. Por isso, qual é o objetivo? Acho que há um grupo de pessoas que está a trabalhar em mobile em sistemas open source(abertos) com ferramentas que já lá estão disponíveis e que, eventualmente, começam a ligar-se a startups e a ajudar as grandes empresas com a transformação digital.

Apesar de se poder dizer que há um movimento lento, é um processo que vai aumentar muito o número de pessoas da área tecnológica no ecossistema de startups e nos negócios tradicionais. O que fazemos é aproximar esta comunidade de jovens universitários e startups, porque a maioria da inovação está a surgir daí. Isto acontece porque há um movimento de open source. Estamos a tentar dar às pessoas os conteúdos físicos que as ajudem a desenvolver competências específicas. Naturalmente, é uma maneira de proporcionar uma formação estruturada para as pessoas que querem programar. Na comunidade, podes encontrar todos estes recursos abertos para utilização, mas existem algumas pessoas, como os estudantes ou aqueles que estão em negócios tradicionais, que precisam de uma estrutura para este processo de desenvolvimento. Criámos estas bolsas para ajudá-las a seguir um caminho estruturado e a adquirirem estas competências. No final, há uma certificação com a descrição das suas competências.

“Se comparares com o investimento que é preciso para um restaurante, este último é mais elevado e o risco também, porque investes antes de abrires, mas depois é preciso ver como corre. Em comparação, a programação é muito barata, rápida e fácil: não tens de ter formação específica, um computador caro e tudo é gratuito”

Estamos a falar de inovação, empreendedorismo, apps. Mas ainda é difícil fazer dinheiro a partir de uma app, não é?
No geral, o desenvolvimento de uma aplicação móvel é um negócio com poucas barreiras, ou seja, só precisas de um computador barato com um sistema open source que possas descarregar, de tempo e dinheiro para despender e mesmo que queiras chegar a outros países,é muito barato fazê-lo – bastam 25 dólares e consegues aceder gratuitamente a quase todos os países. Se comparares com o investimento que é preciso para um restaurante, este último é mais elevado e o risco também, porque investes antes de abrires, mas depois é preciso ver como corre. Em comparação, a programação é muito barata, rápida e fácil: não tens de ter formação específica, um computador caro e tudo é gratuito. Esta é a razão pela qual existe esse numero de aplicações que consegues encontrar na Play Store. Há milhões de aplicações que podes explorar. Nos países emergentes consegues encontrar pessoas a consumir todas as aplicações que encontram na Play Store. Para o programador, é a melhor situação que conseguem encontrar no mercado.

E continua a ser difícil fazer com que as pessoas paguem por apps?
Acho que o modelo de negócio está a evoluir e a tentar reduzir as barreiras. Por exemplo, se olhares para as análises, a maioria das pessoas joga em apps gratuitas, mas depois compram coisas extra. Para os jogos com moedas virtuais, por exemplo, o que os programadores estão a fazer é lançar um período experimental gratuito e depois tentar vender a partir daí. Acho que a situação está a melhorar. Nunca foi tão fácil chegar ao utilizador potencial e perceber se ele quer pagar pela appou não. Mas não se esqueçam que todos estes testes são gratuitos. Tens de dedicar tempo, ter as competências técnicas e ter em mente que estes testes ao mercado são gratuitos. Podes tentar da forma mais barata e rápida de sempre.

Lançaram estas bolsas para resolver o problema da falta de profissionais em tecnologia?
Sim, acho que há poucas coisas que são muito claras: a inovação mais importante em termos de desenvolvimento de software acontece nestas comunidades abertas. É muito difícil ir para uma universidade ou academia e encontrar formação em Android, porque é tudo muito recente. Estamos a trabalhar com todas estas tecnologias em sistemas abertos, porque a inovação na Internet está em sistemas abertosem meetups (encontros de programadores), em comunidades.

A segunda coisa é que estamos a viver a transformação mais importante que alguma vez vivemos: temos muitos novos negócios e muitas transformações que as empresas têm de seguir. São precisas muitas pessoas com talento tecnológico para estas transformações, para estes novos negócios. O que estamos a tentar proporcionar é uma estrutura para que possam desenvolver estas competências em Android. Tudo está online, é gratuito, mas criámos estes cursos para as pessoas que chegam de negócios tradicionais terem material suficiente para conseguirem adquirir as competências que lhes faltam. Estamos a tentar resolver a falta de recursos tecnológicos com estas bolsas. É importante que estas bolsas permitam às pessoas adquirir apoio extra, para depois puderem fazer fazer cursos online, por exemplo.

“Hoje, podes ter como referências estrelas, cantores, futebolistas mas também referências na área tecnológica, em startups ou em empreendedores. E isto é importante, porque quando és criança e estás a crescer talvez precises de ter uma variedade de opções diferentes.”

E é suficiente? O que devíamos fazer para mudar a mentalidade das próximas gerações?
Acho que em Portugal estão a fazer coisas boas. Na última edição deste programa, Lisboa foi a quarta cidade na Europa em bolsas. Estas iniciativas estão a correr muito bem em Portugal e Espanha. Agora temos 75.000 bolsas. Primeiro, tentamos um piloto, vemos o resultado e depois tentamos aumentar o curso e expandir para mais pessoas, integrando não só Android mas também formação em web.

Se comparamos com o que se vivia nos nossos países há dois ou três anos, muitas coisas mudaram. Temos mais visibilidade, mais iniciativa e as pessoas começaram a compreender que, no futuro, vai ser preciso ter estas competências técnicas para perceber e trabalhar seja em que sítio for.

Acha que conferências como a Web Summit ajudam a tornar as profissões tecnológicas mais interessantes?
Hoje, posso vestir esta t-shirt para trabalhar, não preciso de vestir um fato para fazer este tipo de trabalho e isso acontece por causa de conferências como a Web Summit. Acho que toda a gente em Portugal — ou pelo menos toda a gente em Lisboa — está a par da Web Summit e compreende que a cidade está cheia de pessoas por causa da conferência. Por isso, a resposta é sim. Hoje, podes ter como referências estrelas, cantores, futebolistas mas também referências na área tecnológica, em startups ou em empreendedores. E isto é importante, porque quando és criança e estás a crescer talvez precises de ter uma variedade de opções diferentes. Devíamos selecionar a carreira certa no futuro. E agora também já temos uma referência no empreendedorismo e competências técnicas.

Estamos aqui a falar de programadores Android. Mas como é lidar com a competição da Apple?
De um ponto de vista técnico, penso que o que podes receber do Android é totalmente diferente. Podes, por exemplo, ter acesso a Play Stores de uma forma muito económica. Podes ter acesso a ferramentas, aulas e conferências. Temos estado a ligar as comunidades ao longo deste caminho, dando apoio à comunidade. Há uma grande diversidade de aparelhos que suportam o sistema operativo Android, não são só os móveis. Podes encontrá-lo em carros, em aparelhos IOT (Internet das coisas), em todo o lado, porque é um sistema operativo aberto.

Comparando com outras empresas, elas só estão focadas nos dispositivos móveis. Não podem competir para encontrar soluções para carros, equipamentos com IOT ou outras áreas. O Android é um ecossistema muito mais aberto e pode ser muito mais barato, porque não precisas de um computador específico para desenvolver Android. Se quiseres comparar o dinheiro que tens de gastar para comprar um computador pessoal e programar com o sistema operativo IOS, com o preço do portátil que precisas de comprar para programar Android, percebes que Android é muito mais económico para pessoas que tem poucos recursos.

“O terceiro é que temos nas nossas mãos o desenvolvimento das aplicações do futuro. Podes fazer parte do desenvolvimento do futuro, deste ecossistema de inovação. E é uma grande oportunidade para se trabalhar em tecnologia”

Falou da Internet das coisas, de carros, de smartphones. Onde está o futuro? A próxima geração de programadores vai estar onde?
A tecnologia que está a ser uma tendência é o Google Assistant, que podes encontrar em muitos aparelhos. E estamos a promover conhecimento sobre esta tecnologia aos programadores. Achamos que os interfaces já não são os teclados, que vamos começar a ver interfaces em aparelhos não tradicionais. E faz sentido, porque na verdade estamos a levar os aparelhos para todo o lado, juntamente a Internet das coisas. Não faz sentido ter um teclado no microondas, por exemplo

Três conselhos para os programadores portugueses.
O primeiro é: as comunidades são um sítio importante para encontrarmos inovação, os grupos da Google são ótimos, mas há ainda mais grupos. Colaboramos com todas as comunidades abertas. Depois, o Android é provavelmente a melhor escolha se quiseres programar num ecossistema aberto. Se ligares comunidades abertas a um sistema operativo aberto tens o melhor ecossistema de inovação que podes encontrar. Não há barreiras para os sistemas, treinos, ferramentas. Podes encontrar os mesmos interfaces em todo o lado, tendo em conta uma variedade grande de aparelhos, dos mais caros aos mais baratos. O terceiro é que temos nas nossas mãos o desenvolvimento das aplicações do futuro. Podes fazer parte do desenvolvimento do futuro, deste ecossistema de inovação. E é uma grande oportunidade para se trabalhar em tecnologia.

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